A ilusão de controle que vem com toda meta de Ano-Novo

Tem algo que a gente raramente para para perceber quando senta para criar as metas do ano: a pessoa que está escrevendo essas metas não conhece o ano que está por vir. Ela conhece o ano que acabou. Conhece o que sente hoje. Conhece os medos e os desejos de agora. E é essa pessoa, com toda a bagagem e todos os pontos cegos que tem hoje, que vai tentar planejar os próximos doze meses.

Não tem como dar completamente certo. Não porque você seja incompetente ou indisciplinado. Mas porque a vida tem uma quantidade de variáveis que nenhuma lista consegue prever. E confundir “definir uma direção” com “controlar o que vai acontecer” é o começo de quase todo sentimento de fracasso que aparece no final do ano.

Pensa assim: a Cinthia de janeiro acha que vai conseguir desenhar os próximos doze meses de uma vez. Mas a Cinthia de janeiro não sabe das pessoas que vai conhecer em março, do projeto que vai aparecer em junho, das coisas que vão mudar em setembro. Ela só sabe o que sabe agora. E aí ela escreve a lista. E aí o ano acontece. E aí dezembro chega e a lista diz uma coisa e a vida diz outra.

O planejamento não é o problema. O apego é.

Quando você cria uma meta, o que você está fazendo é escolher uma direção. É dizer: quero colocar energia aqui esse ano. Isso é útil. Isso tem valor. Sem nenhum norte, é fácil chegar no final do ano com a sensação de que andou em círculos.

O problema começa quando a meta deixa de ser um norteador e vira uma obrigação que você carrega nas costas o ano inteiro. Quando qualquer desvio do plano original passa a parecer fracasso, mesmo que o desvio tenha te levado para algo muito melhor do que o que estava escrito. Quando você termina dezembro olhando para as nove coisas que não fez das dez que planejou, completamente cego para as cinquenta que aconteceram fora da lista.

Isso é o que acontece quando o apego ao plano supera o plano em si. Você fica tão comprometido com o que a versão de janeiro imaginou que não consegue reconhecer o valor do que a vida de fato trouxe.

A crueldade silenciosa da lista rígida

Tem uma conta que parece justa mas que não é. Você planeja dez coisas. Faz uma. As outras nove não acontecem do jeito que imaginava. E a conclusão imediata é: fracassei o ano inteiro.

Mas e as outras quarenta e nove coisas? As que não estavam em nenhuma lista porque você nem sabia que existiam em janeiro? Essas não entram no cálculo. Porque o único critério de avaliação que você está usando é o plano original, e tudo que não estava lá, por definição, não conta.

E é aqui que a coisa fica interessante. Esse sistema de medição não foi feito para te fazer sentir bem. Ele foi feito para te fazer sentir em dívida. Porque ele ignora sistematicamente tudo que aconteceu fora do roteiro, que é exatamente onde a vida mais acontece.

Não é rigor. É uma forma enviesada de olhar para o que você viveu. E o primeiro passo para mudar isso é perceber que a lista de janeiro não é, e nunca foi, uma medida completa do que o seu ano valeu.

O que acontece quando você larga o controle

Quando você para de tratar o plano como sentença e começa a tratá-lo como ponto de partida, algo muda. Você não abandona a direção, você fica mais aberto para perceber quando o caminho está te levando para algum lugar melhor do que o que você tinha imaginado.

Você entra em projetos que não estavam na agenda. Você conhece pessoas que mudam alguma coisa em você. Você faz workshops que nunca imaginou que faria, vai a shows que o universo jogou no seu colo, aprende coisas que a versão de janeiro nem sabia que existiam. E quando chega em dezembro, em vez de olhar para a lista e contar o que faltou, você consegue olhar para o ano inteiro e ver o que de fato foi.

Isso não significa viver sem direção. Significa viver com leveza suficiente para reconhecer que o inesperado também tem valor. Que o improviso não é o inimigo do planejamento. Que fracassar no plano e ter um ano rico não são coisas que se excluem.

Ouça o episódio do podcast relacionado a esse post: Fracasso no planejamento sucesso no improviso E142 no Spotify.

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