Como as redes sociais silenciam sua voz autêntica

Tem um paradoxo estranho no centro das redes sociais. Elas existem para você se expressar. Mas quanto mais você as usa, mais vai percebendo que a expressão que elas recompensam não é necessariamente a sua.

É a que performa. A que gera clique, salvamento, compartilhamento. A que o algoritmo entende como relevante naquela semana, naquele formato, naquele tom.

E aí começa um processo sutil que muita gente sente mas poucos nomeiam: você vai ajustando o que diz para caber no que funciona. Com o tempo, não sabe mais muito bem o que diria se não houvesse algoritmo nenhum por perto.

O algoritmo não é neutro

Quando você decide não falar sobre um tema porque não está em alta, está deixando uma plataforma decidir sobre o que você tem a dizer. Quando você muda o tom de um post porque o anterior não teve engajamento, está deixando um número calibrar a sua voz.

Isso não é fraqueza. É o funcionamento normal de um sistema que foi construído para isso. As redes sociais são plataformas de distribuição, não de expressão. E como toda plataforma de distribuição, elas têm interesse em controlar o que circula.

O que circula são os extremos. O que provoca reação rápida. O que é facilmente consumível. Conteúdo que exige tempo, nuance ou que fala de coisas que o algoritmo classifica como sensível não tem espaço. Palavras como morte, suicídio, sexualidade, conflito político, tudo isso é filtrado, reduzido, bloqueado.

O resultado é uma versão pasteurizada da realidade. E uma versão pasteurizada de você.

A voz que sobrevive ao algoritmo

O que é curioso, e um pouco irônico, é que o conteúdo que mais cresce nas plataformas hoje é justamente o mais humano. Pessoas falando diretamente para a câmera, sem roteiro, sem cenário perfeito, sem o cuidado excessivo com a produção. Falando o que estão pensando, o que aconteceu, o que estão sentindo.

Parece contraditório. Mas faz sentido quando você entende que as pessoas estão tão cansadas de conteúdo produzido que qualquer coisa que soe verdadeira se destaca.

O problema é que chegar nesse nível de naturalidade depois de anos de produção calculada é difícil. Você precisa desaprender um monte de coisa antes de conseguir ser você de novo sem se sentir exposto demais.

Recuperar a própria voz fora das redes

Talvez o passo mais importante não seja encontrar o tom certo para as redes. Seja lembrar quem você é quando as redes não estão olhando.

O que você falaria numa conversa de bar, sem pensar em formato, sem medir o engajamento, sem se preocupar com quem vai ver? Que assuntos te animam de verdade, independente do que está em alta? Que perguntas você carrega que não cabem em 30 segundos de vídeo?

É aqui que está a sua voz. E é aqui que você precisa voltar de vez em quando, especialmente quando sentir que está produzindo por obrigação e não por vontade.

As redes vão continuar existindo e vão continuar mudando as regras. O algoritmo vai continuar decidindo o que amplifica e o que silencia. Mas a sua voz é sua. Ela existe antes de qualquer plataforma, independente de qualquer engajamento.

O que você faz com ela, dentro e fora das redes, é o que define se você está se expressando ou apenas performando.

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