Crescimento acontece na fricção, não no conforto

Conforto é bom. Ninguém aqui vai fingir que não é. Estar num ambiente onde as pessoas te entendem, concordam, celebram o que você faz, é uma das coisas mais agradáveis que existem. O problema é confundir agradável com transformador. Porque as duas coisas são bem diferentes.

O crescimento real, aquele que muda como você pensa, como você se relaciona, como você enfrenta o que é difícil, não acontece no conforto. Acontece na fricção. No momento em que você é contestado e precisa pensar de um jeito que ainda não pensou. Na conversa que ninguém queria ter mas que precisava acontecer. Na pergunta que chegou num lugar sensível e te obrigou a olhar para lá.

Isso não é argumento para buscar sofrimento. Não é dizer que você precisa estar desconfortável o tempo todo para crescer. É só apontar para algo que a maioria das pessoas evita encarar: que o crescimento tem um custo. E esse custo é o desconforto temporário de ser questionado, de estar errado, de ter que mudar algo que achava que estava certo.

Sem esse custo, o que acontece é refinamento. Você fica melhor no que já é. Não diferente. Não maior. Só mais articulado dentro do mesmo molde de sempre.

O que acontece quando o ego está resolvido

Existe uma cena num filme clássico que ilustra muito bem o que acontece quando alguém tem as coisas resolvidas dentro de si. Um personagem tenta provocar o outro, falando sobre seu escritório bagunçado, sobre suas escolhas, sobre coisas que seriam pontos vulneráveis para qualquer pessoa. E o outro não se abala. Não porque seja insensível. Mas porque já fez as pazes com aquelas coisas. O escritório é bagunçado mesmo. As escolhas foram feitas. Não tem mais o que defender aí.

O ataque só funciona onde ainda tem ferida aberta. Onde ainda tem algo não resolvido. E aí, quando o personagem toca num ponto que ainda está fresco, a reação é diferente. Porque aquilo ainda dói.

O que isso mostra é que a nossa vulnerabilidade ao que o outro diz é proporcional ao quanto ainda não fizemos as pazes com aquilo dentro de nós. Não é fraqueza. É só onde ainda tem trabalho a fazer.

E o caminho não é fechar tudo, blindar tudo, não deixar nada tocar. O caminho é ir fazendo esse trabalho, aos poucos, de entender o que ainda está aberto e começar a olhar para lá. Porque quando você olha para uma ferida com atenção, ela tem menos poder sobre você do que quando você finge que ela não existe.

Não precisar saber de tudo também é uma forma de crescer

Existe uma armadilha específica que aparece muito em quem tem conhecimento numa área: a dificuldade de admitir que não sabe, de ouvir alguém discordar sem sentir que a autoridade está sendo questionada, de estar numa posição de quem aprende em vez de quem ensina.

Quanto mais você sabe sobre algo, mais difícil às vezes fica receber uma crítica naquele campo. Porque a crítica toca não só no conteúdo, mas na identidade construída em torno daquele conhecimento. Você não é só alguém que sabe sobre isso. Você é alguém que sabe sobre isso. E ser questionado aí parece questionar quem você é.

Mas ninguém sabe de tudo. E quanto mais cedo você faz as pazes com isso, mais leve fica. Não saber algo não é uma ameaça. É só uma informação sobre o próximo passo. Tem muita coisa que você ainda não aprendeu. E isso é bom. Significa que ainda tem muito para descobrir.

O crescimento, no fundo, só é possível quando você admite que ainda há espaço para ele. E esse espaço aparece exatamente onde você ainda não chegou.

O atrito como parte do processo, não como obstáculo

Existe uma tendência de olhar para os momentos difíceis, para as conversas que não saíram bem, para os conflitos que deixaram marcas, como se fossem falhas do percurso. Como se um caminho de crescimento real devesse ser mais suave do que aquilo.

Mas a fricção não é o obstáculo do caminho. É parte do caminho. É o que faz o músculo crescer, o que testa se o argumento sustenta, o que revela onde ainda tem trabalho a fazer. Sem ela, você fica na ilusão de que está crescendo, porque nada está te desafiando suficientemente para provar o contrário.

Isso não significa procurar conflito. Não é isso. Significa parar de fugir sistematicamente do desconforto que vem de ser questionado. Significa estar disposto a se sentar com uma crítica ao invés de descartá-la imediatamente. Significa reconhecer que a pessoa que te disse algo difícil pode ter te feito um favor maior do que as dez que só elogiaram.

E ao longo do tempo, o que acontece é que você passa a ter uma relação diferente com o atrito. Ele continua desconfortável. Mas já não parece ameaçador. Porque você tem evidência suficiente de que consegue passar por ele e chegar do outro lado com algo que não tinha antes.

Crescer na fricção não é uma frase de cartão motivacional. É o que acontece quando você para de evitar o que é difícil e começa a confiar que tem o que precisa para atravessar.

Ouça o episódio do podcast relacionado a esse post: Entre a validação e o conflito E145 no Spotify.

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