Feedback honesto: o presente que ninguém quer receber

Tem uma frase que parece simples mas que muda muito quando você deixa ela entrar de verdade. É essa: quando você não diz a verdade para outra pessoa, você impede que ela saiba e que decida o que fazer com aquilo.

A lógica é direta. Se alguém ao seu redor tem um comportamento que está prejudicando ela nas relações, no trabalho, na vida, e ninguém conta, essa pessoa não tem a informação que precisaria para escolher mudar. Ela pode até escolher não mudar. Mas ela não teve a chance de decidir. Você tirou essa chance dela ao proteger o conforto de vocês dois.

É claro que tem contexto. Tem forma. Tem momento. Não é qualquer verdade dita de qualquer jeito que ajuda alguém. E tem coisas que simplesmente não são da sua conta. Mas existe uma diferença entre discernimento e omissão por covardia. E é fácil confundir as duas quando o que você quer mesmo é evitar o desconforto de uma conversa difícil.

O feedback honesto incomoda. Sempre vai incomodar um pouco, porque está falando sobre algo que precisa mudar. Mas é ele que abre espaço para o crescimento real. O elogio que não é verdadeiro não faz nada por ninguém. A verdade dita com cuidado pode mudar o caminho de alguém.

Por que é tão difícil dar feedback honesto

A maioria das pessoas não evita o feedback honesto por maldade. Evita por medo. Medo de magoar, medo de estragar o relacionamento, medo de errar na leitura, medo de que a pessoa reaja mal. E esses medos são reais. Ninguém quer machucar quem gosta.

Mas existe uma ilusão aí que vale examinar. A ilusão de que não falar é neutro. De que não dizer nada não tem consequência. De que você está protegendo a pessoa ao ficar calado.

Não está. Você está protegendo a si mesmo do desconforto. E deixando a pessoa no escuro sobre algo que poderia ajudá-la a crescer.

Há também um outro lado: o ambiente importa muito. Tem contextos que criam segurança para o feedback existir, e tem contextos que não criam. Em ambientes onde discordar nunca foi bem-vindo, onde a hierarquia sempre mandou calar, onde a crítica sempre chegou como ataque, é genuinamente mais difícil criar espaço para a honestidade. Não é só falta de coragem individual. É também uma cultura construída ao longo do tempo.

Mas o ponto de partida ainda é o mesmo: alguém precisa começar. E esse alguém pode ser você.

Como receber o que é difícil de ouvir

Tem algo que acontece quando um feedback honesto chega e pega num ponto sensível: a reação é imediata, automática e desproporcional ao que foi dito. Não porque a pessoa seja frágil. Mas porque o feedback tocou exatamente numa área em que a voz interna já diz que você não é suficiente.

Quando a crítica interna e a crítica externa apontam para o mesmo lugar, a segunda parece confirmação da primeira. E aí a reação não é ao que foi dito. É a tudo aquilo que você já carregava antes de a conversa começar.

Entender isso não torna o feedback fácil de receber. Mas muda o que você faz com ele. Porque em vez de só sentir a dor da palavra que chegou, você começa a perceber de onde vem a dor. E quando você entende de onde vem, você consegue separar o que é verdadeiro no que foi dito do que é reatividade do seu próprio histórico.

E às vezes, ao fazer isso, você descobre que a pessoa estava certa em alguma coisa. E que saber disso, embora doído, foi o presente que faltava.

Criar uma cultura de honestidade leva tempo e começa por você

Uma das coisas mais difíceis sobre o feedback honesto é que ele não funciona de forma isolada. Ele depende de um ambiente onde as pessoas se sintam seguras para falar o que pensam. E esse ambiente não aparece do nada. Ele é construído, conversa por conversa, pela forma como você responde quando alguém diz algo que você não queria ouvir.

Se cada vez que alguém traz uma crítica você fecha, se defende, ataca de volta ou deixa a pessoa se arrependendo de ter falado, você está ensinando ao seu redor que ser honesto tem um custo alto. E as pessoas param de ser honestas com você. Não porque não queiram. Porque aprenderam que não vale a pena.

Por outro lado, quando você recebe o que é difícil de ouvir com abertura, quando agradece mesmo que internamente esteja incômodo, quando mostra que a honestidade do outro é bem-vinda mesmo quando dói, você vai mudando o que as pessoas ao seu redor se permitem dizer. E o resultado é que você passa a ter acesso a informações que a maioria das pessoas nunca recebe, porque ninguém ao redor tem coragem de dar.

Isso é raro. E é, no fundo, um dos maiores presentes que você pode dar a si mesmo: ser o tipo de pessoa para quem vale a pena ser honesto.

Ouça o episódio do podcast relacionado a esse post: Entre a validação e o conflito E145 no Spotify.

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