Existe uma palavra que funciona como um atalho. Quando alguém diz que um homem é afeminado, a conversa parece encerrada. Está ali, nomeado, classificado, arquivado. Mas o que foi dito de verdade? Qual é a lista real de coisas que essa palavra está tentando descrever?
Porque “afeminado” não é uma característica. É um pacote. É jeito de andar, de gesticular, de pronunciar certas palavras. É o volume da voz, a cadência das frases, a forma como os olhos se movem durante uma conversa. É uma série de características específicas que foram agrupadas sob um rótulo, e esse rótulo diz mais sobre quem o usa do que sobre quem ele descreve.
A questão não é se o rótulo é justo ou injusto. A questão é o que acontece com o homem que cresce sendo chamado assim sem entender exatamente o que está sendo dito sobre ele. Sem conseguir ver no espelho o que os outros estão vendo. Vivendo com uma distância entre o que ele é e o que as pessoas percebem, e sem ferramentas para cruzar esse espaço.
Eu trabalhei numa empresa de vendas, a maioria eram homens, homens masculinos mesmo, com todo o estereótipo masculinizado. E as piadas vinham. Sobre o meu jeito de me comunicar, de andar, de pronunciar certas palavras, de usar as mãos. Eu não entendia o que estava sendo dito. Porque não era sobre chorar ou sobre sensibilidade. Era sobre uma lista de características muito específicas que eu tinha, e que eu não sabia que tinha, porque ninguém nunca tinha me descrito.
Quando você descobre aos 28 o que todo mundo sabia antes
Tem situações em que você chega na vida adulta carregando algo que nunca foi nomeado para você. Pessoas mantêm distância de um jeito que você não entende. Piadas aparecem e você não sabe bem se estão apontando para você. Relacionamentos têm uma estranheza que ninguém explica.
E aí, um dia, alguém finalmente fala. Uma mulher que eu estava num relacionamento longo me descreveu o que via. Me contou que no começo achou que eu era gay. Me descreveu os gestos, a forma de falar, o jeito de ocupar o espaço. E eu fui conversar com os meus amigos de infância. Aqueles que me conheciam desde criança. Todos eles, os filhos da mãe, nunca tinham me dito nada. Mas todos achavam a mesma coisa.
Eu tinha 28 anos. Passei 28 anos sem uma informação básica sobre como o mundo me lia. Não porque as pessoas fossem cruéis. Na maioria das vezes, é o contrário: é o desconforto de nomear algo que parece delicado, que pode machucar, que ninguém sabe bem como colocar. Mas o silêncio tem um custo. E o custo é exatamente esse: você navega sem mapa por um espaço que todos ao seu redor conhecem e você não.
O que está sendo chamado de afeminado é uma lista de características
O convite que vale fazer é simples. Da próxima vez que você for usar essa palavra, ou ouvir alguém usá-la, para um instante. E tenta nomear o que está sendo dito de verdade.
Esse homem tem um jeito doce de falar. Esse homem é cuidadoso com as palavras que escolhe. Esse homem é atento ao que as pessoas ao redor estão sentindo. Esse homem se emociona com facilidade e não esconde isso.
Quando você substitui o rótulo pela descrição real, algo muda. Você percebe que nenhuma dessas características diz alguma coisa sobre o valor dessa pessoa, sobre a qualidade das relações que ela tem, sobre o que ela é capaz de fazer no mundo. Você percebe também que o Juliano do BBB, que chora, que acolhe, que fala de sentimentos sem performance, não está sendo “pouco homem”. Está sendo um homem com um repertório que o Jonas não tem. E o repertório do Juliano é o que cria conexão. O repertório do Jonas é o que cria distância.
O que você estava chamando de afeminado era, na verdade, uma forma de ser que não corresponde ao estereótipo que foi ensinado como correto. E estereótipos ensinados não são leis naturais. São escolhas culturais. E escolhas culturais podem ser revisadas, uma característica de cada vez, uma conversa de cada vez.
Tem um detalhe curioso nessa história toda: quando eu me tornei consciente dos trejeitos que tinham me acompanhado a vida inteira, fui mudando muita coisa sem perceber. Não por vergonha, ou não só por vergonha. Mas porque a consciência de qualquer coisa já altera o que fazemos com ela. E hoje, com a consciência diferente, com o entendimento diferente de quem sou, alguns daqueles trejeitos estão diferentes. Não porque foram corrigidos. Mas porque quem eu sou mudou. O que isso sugere é que muito do que você chama de afeminado ou masculino num homem não é um dado fixo. É o resultado de um processo em andamento. E esse processo muda quando a pessoa muda, não quando o rótulo é aplicado.
Ouça o episódio do podcast relacionado a esse post: O que é ser homem sem se perder no caminho E143 no Spotify.

