Tem uma coisa curiosa que acontece quando você cresce sem uma figura masculina perto. Você começa a construir uma imagem do que é ser homem a partir do que observa de longe. Dos amigos que têm pai. Dos filmes. Dos personagens que aparecem na TV. E essa imagem, montada com fragmentos e sem nenhuma experiência direta, fica muito nítida na cabeça.
Nítida e idealizada.
Porque você não vê os bastidores. Você vê o pai do seu amigo num dia bom, numa tarde de futebol, num almoço de domingo. Não vê as brigas, os silêncios, os momentos em que aquele homem também não sabe o que fazer. Então o que você admira é uma versão editada da masculinidade, sem os furos que toda versão real tem. E aí você passa anos tentando chegar naquilo. Numa coisa que nunca existiu do jeito que você imaginou.
Futebol, por exemplo. Nunca fui a um estádio de futebol. Até hoje, na minha vida, nunca assisti a um jogo num estádio. E quando criança eu sentia falta disso, não porque eu amava futebol em si, mas porque era o que representava aquela presença que não estava lá. Era a força, a inteligência, o ser idolatrado, o ocupar espaço sem pedir licença. E eu não tinha nada daquilo, porque fui criado só pelo lado feminino.
Só que eu não conseguia ver com esse olhar. Eu não sabia nomear o que faltava. Só sentia a distância entre o que eu via nos amigos e o que eu tinha em casa.
O que parecia faltar
Quando você cresce olhando para isso de fora, o que parece faltar são as características que você associou àquela presença. A força. A firmeza. A certeza de saber o que fazer. O não ter medo das coisas. O ocupar espaço sem pedir licença. E porque você associou essas coisas a uma figura que não estava lá, elas parecem ainda mais distantes. Não é só que você não tem aquelas características. É que você nem teve de onde aprendê-las.
O que é precisamente por isso que muitos homens criados só por mães passam boa parte da vida perseguindo uma masculinidade que imaginaram, não uma que vivenciaram. E há uma diferença enorme entre as duas. A imaginada é sempre mais limpa, mais clara, mais definitiva do que qualquer coisa real pode ser. Ela não tem defeito. Não tem contradição. Não tem os dias em que o homem que você admira de longe também está perdido e não sabe o que fazer.
E aí o problema não é só que você tenta atingir um ideal que nunca existiu. É que você não consegue sequer perceber que está fazendo isso. Você acha que o que falta é uma característica sua. Quando na verdade o que falta é uma experiência que nunca teve. E não ter tido a experiência não é o mesmo que ser incapaz de tê-la.
O que, sem querer, foi poupado
Mas tem outro lado que demora mais para aparecer. Crescer sem aquela presença também significa não ter sido ensinado por ela. E se a masculinidade que essa presença ensinaria era a da dureza, da repressão emocional, do não chorar nunca, do resolver tudo na força, então a ausência protegeu de alguma coisa.
Não é conforto fácil. Não resolve a saudade de algo que nunca existiu. Mas é uma observação honesta: às vezes o que parecia falta criou um espaço. Um espaço onde certas coisas não foram proibidas. Onde chorar não foi punido de forma sistemática. Onde ser curioso, ser cuidadoso, ter um jeito mais delicado não foi imediatamente corrigido com “isso é coisa de menina”.
Tem homens que cresceram com figuras masculinas muito presentes e que hoje precisam desconstruir camada por camada o que foi ensinado por essas presenças. O pai que nunca chorou. O tio que resolvia tudo no grito. O avô que achava que sentimento era frescura. Essas presenças ensinaram muita coisa, sim. Mas nem tudo que foi ensinado é o que você queria ter aprendido.
E quando você olha para quem se tornou, com todas as tensões que essa história carregou, vale perguntar: o que de você veio do que faltou e o que veio do que sobrou? Porque as duas coisas moldaram. E separar uma da outra é o trabalho de uma vida inteira, não de uma conclusão simples.
O que complica ainda mais é que a masculinidade que você admirava de longe já era, por si mesma, uma construção. O pai do seu amigo também estava seguindo um roteiro que não escolheu. A firmeza que você admirava talvez fosse rigidez. A certeza que parecia força talvez fosse incapacidade de duvidar. Você estava admirando uma performance, e performances, vistas de longe, sempre parecem mais sólidas do que são. O que isso não invalida é a saudade. A saudade de algo que nunca existiu do jeito que você imaginou ainda é real. Mas ela deixa de ser uma condenação quando você percebe que o que estava perseguindo era uma ideia, não uma pessoa. E ideias, ao contrário de pessoas, podem ser revisadas.
Ouça o episódio do podcast relacionado a esse post: O que é ser homem sem se perder no caminho E143 no Spotify.

