Validação constante faz bem ou mal à autoestima?

Tem uma situação que parece ideal mas que esconde um problema. Você está num ambiente onde todo mundo te elogia, todo mundo concorda, todo mundo celebra o que você faz. E você se sente bem. Muito bem. A sensação é de que tudo está no lugar certo, de que você é competente, capaz, suficiente.

O que é triste nisso é que esse bem-estar tem uma data de validade. E quando ele acaba, a queda é proporcional ao quanto você depende dele para se sentir inteiro.

O que acontece quando a validação externa é constante é que ela funciona como uma anestesia. Se por dentro você carrega a sensação de que não é suficiente, de que não dá conta, de que tem algo errado em você, o elogio que vem de fora alivia isso temporariamente. Chega, você respira, parece que está tudo bem. Mas quando o elogio para, a sensação volta. E aí você precisa de mais. Um pouco mais. Mais um. E vai ficando dependente de uma fonte externa para sentir algo que deveria conseguir gerar internamente.

Não é fraqueza. É um padrão que se instala devagar e que faz sentido dado o que você aprendeu sobre si mesmo ao longo da vida. Mas reconhecê-lo já muda alguma coisa.

A pergunta que vale se fazer não é “recebo validação?” mas “o que acontece comigo quando ela para?”

A positividade tóxica e o que ela rouba de você

Existe uma versão de afeto que parece generosa mas que não ajuda ninguém. É quando a pessoa ao seu redor só tem coisa positiva para dizer, sempre. Quando não existe espaço para uma pergunta difícil, para um “será que tem outro jeito de ver isso?”, para qualquer coisa que não seja confirmação do que você já pensa.

Isso não é necessariamente mal-intencionado. Muitas vezes é o oposto: alguém querendo proteger você de um desconforto, alguém que gosta de você e não quer te ver mal. Mas o efeito é que você fica sem o atrito que precisaria para crescer. Sem ninguém que te faça pensar diferente. Sem a chance de descobrir onde os seus argumentos têm furos.

E é aqui que a coisa fica interessante: a pessoa que só valida pode estar te amando de um jeito que te mantém pequeno.

Não porque ela queira isso. Mas porque criar um ambiente onde só existe concordância não é cuidar de você. É cuidar do conforto dela em estar perto de você. É não querer lidar com o desconforto de te dizer algo que você precisa ouvir mas que vai doer. A positividade tóxica, no fundo, é muitas vezes sobre quem valida. Não sobre quem é validado.

Quando a gente entende isso, fica mais fácil parar de buscar só ambientes que celebram. E começar a valorizar os que desafiam.

Autoestima de verdade não precisa de plateia

A diferença entre autoestima e dependência de validação é essa: autoestima é o que sobra quando ninguém está olhando. É conseguir sustentar quem você é, o que você pensa, o que você fez, independente de alguém confirmar que foi bom. É uma base interna que não desmorona quando o elogio para.

Isso não significa que elogios são ruins ou que você deve rejeitar reconhecimento. Significa que quando o elogio vem, ele é um bônus. Algo agradável, bem-vindo, mas não necessário para que você continue de pé. Não o combustível que te mantém funcionando.

Construir isso leva tempo. E passa, paradoxalmente, por se expor a ambientes onde você não é apenas celebrado. Onde alguém discorda. Onde você precisa defender o que pensa sem apoio externo. Onde às vezes você percebe que estava errado, e tem que lidar com isso sem desmoronar.

Cada vez que você passa por isso e continua inteiro do outro lado, você deposita algo num banco interno. Uma evidência de que consegue. De que aguenta. De que não precisa de todo mundo concordando para saber quem é.

Esse banco é o que sustenta a autoestima de verdade. Não os elogios que chegam de fora. Mas as provas que você acumula por dentro de que é capaz de estar presente mesmo quando a validação não aparece.

O que acontece quando a validação para de chegar

Tem um momento específico que revela muito sobre onde está a sua autoestima. É quando o ambiente muda. Quando o grupo que sempre te celebrava se dispersa, quando o trabalho que te reconhecia acaba, quando o relacionamento que te validava termina. E de repente você está num contexto onde as confirmações externas que você estava acostumado a receber simplesmente não aparecem mais.

Para algumas pessoas, esse momento é devastador. Não porque perderam algo importante, embora tenham perdido. Mas porque percebem que o que achavam que era autoestima era, na verdade, um reflexo. E reflexo desaparece quando o espelho vai embora.

Para outras pessoas, esse mesmo momento é desconfortável mas não desestruturante. Elas sentem a falta, claro. Mas continuam de pé. Continuam sabendo quem são. Não precisam que o ambiente confirme isso para seguir em frente.

A diferença entre os dois grupos não é talento, não é sorte, não é personalidade de berço. É o trabalho, feito ao longo do tempo, de construir uma base interna que não depende do externo para existir. Isso não acontece de uma hora para outra. E não é um estado que você atinge e mantém para sempre sem esforço. É um processo contínuo. Mas começa com uma decisão: a de parar de terceirizar para o outro a tarefa de te dizer quem você é.

Ouça o episódio do podcast relacionado a esse post: Entre a validação e o conflito E145 no Spotify.

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