As melhores coisas do ano não estavam no plano

Tem uma pergunta que vale fazer no final de qualquer ano: das coisas mais significativas que aconteceram, quantas estavam no plano? Quantas você colocou na lista de janeiro, num dia frio ou quente, com a melhor das intenções?

Para a maioria das pessoas, a resposta é: poucas. Às vezes nenhuma.

Não porque o planejamento seja inútil, mas porque as coisas mais transformadoras tendem a chegar de onde você não estava esperando. Um convite que apareceu do nada. Uma pessoa que você conheceu por acaso. Um projeto que surgiu de uma conversa que não estava na agenda. Um show que o universo literalmente jogou no seu colo, o artista veio até a sua cidade sem você ter planejado nada, e foi uma das noites mais bonitas do ano.

Isso não é sorte. É disponibilidade.

O que significa estar disponível para o inesperado

Disponibilidade não é passividade. Não é ficar esperando que as coisas aconteçam sem fazer nada. É uma postura ativa de não estar tão agarrado ao roteiro que qualquer desvio pareça uma ameaça.

Quando você passa o ano inteiro tentando executar um plano rígido, você fecha as portas laterais. As coisas que aparecem sem aviso, que não se encaixam no que estava escrito, passam a parecer interrupções. Distrações do que realmente importa. E você as rejeita, às vezes nem percebe que as está rejeitando, antes mesmo de entender o que trazem.

Mas quando você tem uma relação mais leve com o plano original, quando ele é um ponto de partida, não uma sentença, você consegue reconhecer quando algo que não estava na lista merece atenção. Quando o desvio é, na verdade, o caminho. Quando o improviso vai te levar para algum lugar que o plano nunca conseguiria.

O primeiro semestre que ninguém planejou

Tem uma situação que ilustra bem isso. Você chega no meio do ano estudando coisas que em janeiro você nem imaginava que estudaria. Fazendo workshops de escrita e leitura que não estavam em nenhuma agenda. Entrando em projetos novos que surgiram de convites inesperados. E tudo isso foi bom. Foi muito bom. Você pode ver a alegria nas pessoas quando falam sobre o que aprenderam.

Mas como não estava na lista, fica com um peso menor. Como se precisasse de uma validação que o plano nunca deu. E aí chega dezembro e a sensação imediata é de fracasso, porque as metas de janeiro não foram cumpridas, quando na verdade foi um ano cheio de coisas que valeram muito.

O problema não é o que aconteceu. É a lente com que você está olhando para o que aconteceu.

A adrenalina que só o improviso dá

Tem um detalhe que raramente aparece nas conversas sobre planejamento: quando você faz exatamente o que planejou, do jeito que planejou, não tem novidade. Não tem surpresa. Você já sabia como ia ser antes de começar, foi por isso que planejou, porque conhecia o caminho.

Cadê a adrenalina da novidade? Cadê o prazer de descobrir algo que você não sabia que existia? Cadê a satisfação de chegar em algum lugar que você não imaginava que ia chegar?

Tudo isso só existe fora do roteiro. É o improviso que traz a experiência de aprender de verdade, de ser surpreendido, de descobrir que você é capaz de coisas que a versão de janeiro não teria nem listado. E é exatamente por isso que um ano cheio de imprevistos e ajustes pode ter sido muito mais rico do que um ano onde tudo saiu exatamente como planejado.

Ouça o episódio do podcast relacionado a esse post: Fracasso no planejamento sucesso no improviso E142 no Spotify.

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