Tem uma conta que a maioria das pessoas faz no final do ano e que não fecha de jeito nenhum. Você planeja dez coisas. Faz uma, ou duas, se o ano foi generoso. As outras oito ou nove não acontecem do jeito que imaginou. E a sensação que fica é de fracasso. Um ano perdido. Esforço insuficiente. Uma versão menor de você do que deveria ser.
Mas as outras quarenta e nove coisas? As que não estavam em nenhuma lista porque você nem sabia que existiam em janeiro? Essas simplesmente não entram no cálculo. Como se não tivessem acontecido. Como se o único critério válido de avaliação fosse o plano original, e tudo que ficou de fora, por definição, não contasse.
Isso não é rigor. É uma distorção. É uma forma de medir que está calibrada para te fazer sentir em dívida, independente do que você tenha feito.
De onde vem essa lente distorcida
A gente aprende desde cedo a medir o sucesso pela execução do que foi planejado. Na escola, o que importa é entregar o que foi pedido. Na faculdade, é cumprir o que estava no programa. No trabalho, é fechar o que estava no escopo. O que surgiu no caminho, o que você aprendeu sem querer, o que aconteceu fora do previsto raramente entra na avaliação formal.
E aí essa lente vai para a vida pessoal junto, como se fosse natural. Você olha para o ano com os mesmos critérios de uma revisão de desempenho. O que estava na meta e aconteceu conta. O resto, não. E aí você trata a sua própria vida como se fosse um projeto corporativo com escopo fechado, quando na verdade é uma coisa viva, que transborda o que você planejou o tempo inteiro.
O problema é que as coisas mais importantes muitas vezes chegam exatamente no transbordamento. No que não estava planejado. No que surgiu sem aviso e você deixou entrar porque tinha espaço para isso.
A crise dos trinta e o plano do garoto de quinze
Tem uma versão mais antiga dessa mesma distorção que muita gente conhece bem. É quando você faz trinta anos e olha para o que o garoto ou a garota de quinze planejou para essa fase da vida. Casado, com filho, com casa, com carro, com tudo resolvido. E descobre que a vida foi em outra direção completamente. Que as coisas que você tem hoje não eram as que o adolescente imaginou. E que isso parece, no primeiro olhar, um fracasso.
Mas é o mesmo problema. É uma versão muito mais jovem de você tentando definir o que a versão atual deveria ser. Com muito menos informação, muito menos experiência, e muito mais certeza do que deveria ter sobre como as coisas funcionam.
O garoto de quinze anos não sabia quem você ia se tornar. Não sabia o que ia importar para você. Não sabia das escolhas que você ia fazer e que foram certas mesmo que não estivessem no plano dele. E tratá-lo como árbitro do sucesso da sua vida adulta é uma injustiça com tudo que você construiu desde então.
O exercício que muda a perspectiva
Existe uma prática simples que ajuda a calibrar essa lente. Em vez de começar a retrospectiva do ano pela lista de metas, começa por outra pergunta: o que aconteceu esse ano que foi significativo para mim?
Não o que estava planejado. O que foi significativo. Pode ser uma conversa que mudou algo em você. Uma viagem que surgiu do nada. Um livro que reorganizou como você pensa sobre alguma coisa. Uma amizade que se aprofundou sem que você tivesse planejado que isso acontecesse. Um projeto que apareceu sem aviso e que te ensinou coisas que a versão de janeiro nem sabia que precisava aprender.
Quando você lista essas coisas primeiro, antes de abrir a lista de metas, a perspectiva muda. O ano que parecia vazio começa a mostrar o que de fato estava lá. E aí, com essa visão mais completa, fica mais fácil olhar para o que não aconteceu e perguntar com honestidade: isso realmente fez falta? Ou eu estava apegado a uma versão do ano que não era a que eu precisava viver?
Ouça o episódio do podcast relacionado a esse post: Fracasso no planejamento sucesso no improviso E142 no Spotify.

